terça-feira, 4 de outubro de 2011





















(Tradução - Alexandre Santos)

Em certa borda lúgubre d'uma meia-noite, fisgado
Por concentração com singular mofo erudito,
Sucessivamente curvo e fatigado; quase desprevenido,
Com pálpebras precipitadas ao solo, de súbito, baques
Desatando-se pelo aposento em serena fúria.
"Alguma visita," murmurei, "a bater em minha porta -
Mero, e nada mais."

Ah, está claro, bem me lembro, gélido e errante Dezembro;
E cada agonizante rastro de chama marchetava-se tremulo
Escuro pelo chão. Ávido desejei o ouro da manhã - inutilmente
Vasculhei livros, rastreando antídoto que despistaria a dor - Ai,
Saudade buscando em todas as direções a ausente Leonor.
Anônima pelo nunca mais.

Delicado rumorejar sombrio das cortinas tremeluzia-me,
Traduzindo-me perturbações vertiginosas jamais até então
Investigadas! Assim, a desnortear o urro cardíaco, estaquei-me
Repetindo, "É alguma visita íntima chamando-me à entrada -
Visita tardia em prece diante de minha porta - É isso!
Isso e nada mais."

Foi quando o vigor contagiou-me pelo de-dentro; sem mais hesitar
Rompi-me voz. "Sr., ou Sra., imploro-te perdão por tal sigilo;
De fato eu quase adormeci, até que cortês em demasia
Sobressaltou-me, batendo em minha porta tão obstinado que só
Restava-me atender-te." Escancaro a porta, quase ofegante. Negrume;
Noite e nada. Nada mais.

Noite fitando-me no instante mesmo em que a espreito;
Estanquei-me temor - inquietante estranhamento. Perplexo,
Imaginando epiderme pela qual ninguém jamais ousou ser-se
Atraído; mas o silêncio vasto estilhaça-se mudo, salvo
O nome de minha amada por mim indagado em sussurro. Um eco,
"Leonor!", desloca-se em (re)torno do vazio escuro - Mero
E nada mais.

Caminho pelo aposento com minh'alma em chamas, já
Ouvindo pancadas ainda mais contundentes que as carícias
De então. "Não há dúvida," pensei, "o que há para ser está
Atrás da janela. Descortine-se enfim mistério; desvele-se.
E que o rufar cardíaco dê uma trégua à revelação -
Coisas do vento e nada mais!"

Destravo o trinco num arranco. Maleável e envolvente entra;
Alvoroça-se um sublime Corvo palpitando-se com a graça
De tempos ancestrais! Sem reverência sequer avança-se
Noturno pelo espaço que abarca. Com ares de um Grande Deus
Acolhe-se no cume de minha entrada, contrastando-se
Em garras no alvo busto de Pallas, bem sobre meus umbrais.
Pulsou-se, acomodou-se e nada mais.

O pássaro negro, equilibrado em aspecto de solene sepulcro,
Como se o entorno ad infinitum pressagiasse colapso,
Seduziu sorriso em meu amargor. "Criatura noturna", eu disse,
"Com excrescência carnosa delatada no topo do crânio,
Tua astúcia não teme. Oh! Corvo sem tempo-espaço, arcaico
De sangue fresco, testemunho de suplício atroz! Me conte
Magnânimo nome que noites afundadas de inferno honraram a ti!"
O Corvo fala, "Nunc'mais."

Maravilhei-me com palavras tão límpidas, ditas por esta ave
Extravagante, ali - ainda que em palavras sem aparente liame;
Já que não há como não concordar que não há humano vivo
Abençoado por contemplar aparição esta ao alcance dos olhos.
Ave ou desumanidade incrustada audaz sobre alva face remota,
Com um nome como "Nunc'mais."

Porém o Corvo, exclusivo no plácido busto, disse apenas e só.
Naquele naco ínfimo de linguagem sua alma complexificou-se
Ininterrupta. Nem ao menos um sopro acenou, sequer um cisco meu
Pensamento capturou. Até que inerte murmurei, "Amigos tantos já
Partiram. Pela manhã, como os sonhos, sei que aqui não mais."
Então a criatura disse, "Nunc'mais."

Estremecido pelo vazio transbordado por palavras de encaixe
Certeiro; "Por certo," digo, "em seu verbo abasteceu-se
Instrução de algum mestre infausto, fertilizado por barbáries
Espiraladas sem cessar, tão incansável que do canto fúnebre
Configurado como Equilíbrio-teu, um resíduo permanece alicerce:
'Nunca - Nunc'mais.' "

O vínculo que nos empenou, Corvo e eu, um ao outro, sorria-me
O pensar. Arrastei a poltrona bem na frente da escura ave ali fincada,
Embalando-me absorto sobre aveludado assento, buscando nortear
Inflexível magnetismo que esse desalinhado, cadavérico, des-
Encarnado e nefasto pássaro estranho, de familiar silêncio vasto,
Desejou dizer ao crocitar "Nunc'mais."

Distraidamente atento. Fisgado sem sílaba sequer manifestada
Ao companheiro empoleirado, enraizando-se em meu âmago
Pelos negros olhos corrosivos; eu, refletindo coisas tantas,
Com a cabeça tranqüilamente reclinada na almofada pêssego
Violeta por onde antiga luz do teto sombreava-a em repouso
Sublime. Agora ah ah ah nunca mais!

Então o ar enfeitiçou-se denso, incenso oculto por anjos ondula
Incerteza incalculável tinindo passos no chão movediço. "Maldito"
Uivei, "Deus, turbilhão de anjos estilhaçou incontáveis
Probabilidades procriando infinito, germinando esquecimento
Carcomendo-lhe a dor. Despregando-se, oh oh oh oh oh oh
Desatando-se do trajeto que Leonor marcheta-se escondida.
E o Corvo disse, "Nunc'mais".

"Profeta!" diss'eu, "anjo do inferno! Profet'ave do demônio!
Sejas tu caído aí por Satã ou náufrago de tempestade qualquer,
Despovoado e ainda todo temido, neste lar infestado de asfixia
Arenosa. Anuncie, interprete. Fale! Eu te imploro! Diga-me,
Oh Corvo, diga-me se há. Eu te suplico! Existe? Você alcança?
Há bálsamo esquivando-se pelo rastro que me atrai?
Disse o Corvo, "Nunc'mais".

"Profeta!" clamo, "anjo do inferno! Profet'ave do demônio!
Desenterre véu que configura-me; brote-me umidade nas articul-
Ações; suplico-lhe! por Deus, pelo alicerce das estrelas; diz!
Dê-me resvalo, luz dissolvendo máculas nessa alma, lavando uivo
Esquadrinhando-me estendido pelo campo que o nódulo orbita pulso.
Me conte se ser-me-á ao alcance de rara aurora que anjos chamam
Leonor. "Nunc'mais".

"Que esta palavra te arranque daqui, maldita ave.", grito
Fincando-me de pé. Caia fora! Retorna-te à tormenta, à noite
Que engole o dia. E que nem uma pluma sequer seja ruído teu,
Jamais! Permita minha solidão intocável! Desate-se do crânio
Branco sobre meus umbrais! Desgarre-se das valvas de meu coração!
Fora daqui!" "Nunc'mais."

E o Corvo ignorou-me como um punhal encravado, ainda imóvel
Por sobre o pálido busto altivo - medonho e trágico espiando
Escombros. Seus olhos contundindo-me cortante; parado como
Demônio que sonha. Luz do teto jorra sombra encrespada no chão.
E minh'alma estendida pelo de dentro da sombra esquadrinhada
Emergir-se-á além... nunca mais!